sábado, 21 de julho de 2012

Desvairada crônica da paulicéia...


No sábado ensolarado, depois da semana gelada, a desculpa de uma compra doméstica qualquer para levar os sapatos velhos para passear. Em São Paulo, a rua sempre me surpreende. Na praça, mendigos se juntam alegres, numa roda de samba de garrafas vazias e palmas de mãos sofridas, se abraçando docemente à tarde de sol que faz todos parecerem um pouco mais iguais. Porque ali, naquele momento, ninguém sofre com frio ou chuva.  Na calçada do pomposo teatro, símbolo burguês, punks adolescentes se reúnem com suas caras sisudas, alheios à política, trocando informações inúteis de revoluções estéticas sem muito significado. No que chamam de ponto inicial da distinta sociedade colonial, turistas trafegam entre artefatos indígenas do museu da missão católica, numa tentativa inconsciente de achar tudo lindo e normal e cultural e incrível, quando na verdade, tudo que aquilo representa já não se conta mais nas escolas. No café com chocolate, no bolo das freiras e no pão do padre, tudo é gostoso e contemporâneo com nome de tradição secular. Na frente da antiga igreja, jovens se acotovelam para comprar tênis, stickers e t-shirts, enquanto no viaduto sem carros, outro morador de rua dança despreocupado ao som de um família de tradições indígenas latinas que tocam flautas ligadas a potentes caixas de som. Mesmo assim, contraditória, caótica e inconsciente do próprio conteúdo, São Paulo sempre me surpreende, enquanto naquela mesma praça, os mendigos continuam improvisando um carnaval até o sol se por...