No sábado ensolarado, depois da semana gelada, a desculpa de uma
compra doméstica qualquer para levar os sapatos velhos para passear. Em São
Paulo, a rua sempre me surpreende. Na praça, mendigos se juntam alegres, numa
roda de samba de garrafas vazias e palmas de mãos sofridas, se abraçando
docemente à tarde de sol que faz todos parecerem um pouco mais iguais. Porque
ali, naquele momento, ninguém sofre com frio ou chuva. Na calçada do pomposo teatro, símbolo
burguês, punks adolescentes se reúnem com suas caras sisudas, alheios à
política, trocando informações inúteis de revoluções estéticas sem muito
significado. No que chamam de ponto inicial da distinta sociedade colonial,
turistas trafegam entre artefatos indígenas do museu da missão católica, numa
tentativa inconsciente de achar tudo lindo e normal e cultural e incrível,
quando na verdade, tudo que aquilo representa já não se conta mais nas escolas.
No café com chocolate, no bolo das freiras e no pão do padre, tudo é gostoso e
contemporâneo com nome de tradição secular. Na frente da antiga igreja, jovens
se acotovelam para comprar tênis, stickers e t-shirts, enquanto no viaduto sem
carros, outro morador de rua dança despreocupado ao som de um família de
tradições indígenas latinas que tocam flautas ligadas a potentes caixas de som.
Mesmo assim, contraditória, caótica e inconsciente do próprio conteúdo, São
Paulo sempre me surpreende, enquanto naquela mesma praça, os mendigos
continuam improvisando um carnaval até o sol se por...