quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Cartas de amores (4)

- É... ela fala e pausa enquanto a porta do elevador se abre.

Passos para fora, mais dois no corredor, chave na porta, dois giros...

Um respiro meio ansioso, meio nervoso. Não que nunca tivesse feito aquilo antes... Hesita uma fração de segundo antes de girar a maçaneta, com um leve sorriso, sempre assim...

- Chegamos! Não repara na bagunça... (foi a única coisa que conseguiu falar)

Passos para dentro, luz do abajur que tinha ficado acesa, chaves penduradas pelo lado de dentro da porta, bolsas sobre a mesa, pára no meio da sala...

- Quer beber alguma coisa?
- Só se tiver você engarrafada...

(foram as últimas palavras das próximas horas)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A vida é uma colcha!

... a verdade é que à medida que vamos ficando mais experientes (para não usar a feia e dura palavra "calejadas"), vamos entendendo que a maior parte das relações que vivemos não são mesmo para serem duradouras. Não começaram com essa intenção, não se desenvolveram para isso e simplesmente 'did not meant to be' desde o início. E aí vai diminuindo aquela mania chata de esperar um 'forever and ever' de cada beijo que se dá na balada. E vai diminuindo o tamanho da frustração quando aquele beijo se prolonga por uma semana, um mês, oito meses e, da mesma forma que começa, termina. Aí a gente pensa dois segundos (mentira, pensa uns dias) e vê que, na real, aquilo nunca foi tanta coisa assim: nunca foi uma amizade tão forte assim, nunca foi uma dedicação, nunca foi um sentimento... Era tudo só vontade. A parte boa é que a gente vê, com um pouco mais de destreza e velocidade, o que tinha de bom para se tirar daquele beijo. O que se aprende é bem mais eficaz, o crescimento é bem mais nítido, e aí, depois que a dorzinha de cotovelo passa (porque ela sempre passa), depois que a pequena frustração vai embora, tudo faz mais sentido. Eu aprendi isso, cresci naquilo, e essa pessoa - o mais importante - me contribuiu com x, y e z. Quem sabe até um w! E só isso, quando a gente já está mais experiente (para não dizer - de novo - calejada), já basta! Porque a vida é isso mesmo, é uma colcha de retalhos, cada pessoa tem uma cor e uma estampa que a gente vai costurando uma na outra.
... a verdade é que algumas pessoas são pedaços bem maiores de retalhos, às vezes peças grandes de tecido, e a gente vai costurando os pequenos por cima da base comprida. Ou então, acontece de algumas poucas (e elas, sendo poucas, bastam) terem a estampa preferida. E a gente fica costurando pedaços coloridos delas na nossa colcha a vida inteira!

sábado, 6 de outubro de 2012

Café com leite e pão com melancolia

Acordei...
Mas não sei se foi melancolia, se foi alegria...
... Ou se foi uma felicidade estranha de saber que, no fundo, está tudo bem.
Também não sei se foi tristeza...
Se foi saudade do que foi e nunca mais voltou,
ou do que nunca tive...
Pensando bem, também pode ter sido sonho...
daquele lugar distante, daquela janela aberta, daquele mar...
É, daquele lugar que ainda não fui...
Indo além, deve ter sido vontade...
... De ver, ouvir, cantar, sorrir.
Uma necessidade de surpresa e novidade que vez por outra me consome.
Mas que me cansa quando encontro o que não sabia que tinha ido buscar...
Mal de querer sempre mais
e além.
Além de mim!
Vou na rua, virar uma esquina, esbarrar com o desconhecido...
quem sabe eu volto!


sábado, 18 de agosto de 2012

Lá fora, na rua,

tá frio, tá calor...

...tá frio de novo...

mas na cama vazia, nada mais esquenta...

sábado, 21 de julho de 2012

Desvairada crônica da paulicéia...


No sábado ensolarado, depois da semana gelada, a desculpa de uma compra doméstica qualquer para levar os sapatos velhos para passear. Em São Paulo, a rua sempre me surpreende. Na praça, mendigos se juntam alegres, numa roda de samba de garrafas vazias e palmas de mãos sofridas, se abraçando docemente à tarde de sol que faz todos parecerem um pouco mais iguais. Porque ali, naquele momento, ninguém sofre com frio ou chuva.  Na calçada do pomposo teatro, símbolo burguês, punks adolescentes se reúnem com suas caras sisudas, alheios à política, trocando informações inúteis de revoluções estéticas sem muito significado. No que chamam de ponto inicial da distinta sociedade colonial, turistas trafegam entre artefatos indígenas do museu da missão católica, numa tentativa inconsciente de achar tudo lindo e normal e cultural e incrível, quando na verdade, tudo que aquilo representa já não se conta mais nas escolas. No café com chocolate, no bolo das freiras e no pão do padre, tudo é gostoso e contemporâneo com nome de tradição secular. Na frente da antiga igreja, jovens se acotovelam para comprar tênis, stickers e t-shirts, enquanto no viaduto sem carros, outro morador de rua dança despreocupado ao som de um família de tradições indígenas latinas que tocam flautas ligadas a potentes caixas de som. Mesmo assim, contraditória, caótica e inconsciente do próprio conteúdo, São Paulo sempre me surpreende, enquanto naquela mesma praça, os mendigos continuam improvisando um carnaval até o sol se por...