Se um dia eu publicasse uma biografia, sem medo de errar o título seria "crônicas de (não) coincidências".
Dia desses alguém olhou minha mão direita e disse que eu usava o anel de formatura na mão errada. Para sanar meu olhar de incompreensão, me explicou na sequência que o correto seria usá-lo na mão esquerda, pois o adorno significa um "casamento" com a profissão. Fiquei pensando depois que, segundo as convenções sociais estabelecidas para anéis, mãos e relacionamentos, usar o símbolo da profissão na mão direita seria um compromisso com ela e não um casamento definitivo e convencional.
Aí lembrei do rumo que minha vida tomou nos últimos anos. E de todas as (não) coincidências que sempre me acompanham, involuntariamente. O anel de formatura não foi parar na mão direita por algum motivo pensado. A razão é que meu anelar esquerdo já está ocupado com outra jóia simbólica, que também foi adotada sem grandes pretensões, mas que me acompanha há mais de 10 anos.
Explico. Há uns 12 anos, encontrei um anel de mamãe meio abandonado e o pus no dedo sem muitos critérios (no anelar, o único em que o adorno cabia). E aí ele foi ficando, achava bacana ter algo que representasse minha mãe sempre comigo. Um ano depois perdi meu pai. E eu virei o ponto de equilíbrio da família, mais por força das circunstâncias que por escolha própria.
Cuidando da estabilidade emocional de mamãe, meu compromisso com ela virou uma espécie de "casamento". Na falta de papai para cuidá-la, toda a companhia do "na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza" ficou de herança para mim. Não reclamo, não acho ruim nem lamento. Fato é que o anel no dedo esquerdo acabou inconscientemente virando um símbolo de relacionamento.
Na falta do esquerdo, a jóia da formatura foi parar no direito. Não fazia idéia do real significado do presente que minha mãe tanto fez questão de dar. Mas aceitei, e uso-o sempre. Uns tempos depois me falam da convenção destes símbolos. Na mão direita seria apenas um compromisso. E quando descubro isso, coincidentemente (ou não) minha área de atuação já está direcionada por um caminho alternativo, um compromisso saudável e sério com a arquitetura, mas sem as amarras e convenções que um casamento traz. De repente, o uso casual de um anel ganhou uma forte significância...
Acho engraçadas essas convenções. Fato é que casamos e nos comprometemos com muitas coisas na vida. Trabalho, família, amores, ideais. Para algumas juramos fidelidade eterna, para outras prometemos seriedade e respeito. Para algumas, só damos satisfação...
Faltariam dedos para tantos compromissos feitos na vida. O lugar deles é no coração. Ali, cabem todos os anéis do mundo.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Sobre mãos, anéis e coincidências.
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sábado, 3 de julho de 2010
Cidade-lugar, alma sem cidade.
Fortaleza às vezes deixa de ser... Esquece de ser cidade.
De ser rua, calçada, gente, dia e noite. Talvez seja o calor. Fato é que os espaços trancam-se em vidros, lâmpadas e condicionadores de ar. Cidade do sol de luzes artificiais, só deixa o codinome mais irônico.
É, talvez seja mesmo o calor. Mas já são quatro da tarde e hoje não está tão quente. Muito tarde: Fortaleza já perdeu o costume de contemplar a si mesma. E se não for areia e mar, não há vidros, não há paisagem, não há nada lá fora. Horas em vão em busca de um café com varanda, um lugar aberto que fosse, que me deixasse ver os carros passando. Em terras onde varanda é rainha da arquitetura, não achei nenhuma. Eu queria ver a cidade viver, mas não encontrei uma janela aberta.
Tudo olha para dentro: pátios, corredores, balcões, umbigos. Tudo é sombrio e meia-luz na terra do sol brilhante. Disfarçados de charmosos, sofisticados e elegantes, os lugares se isolam. O chique é aqui dentro, o que há lá fora, não importa. Fortaleza virou colcha de retalhos. Um conjunto insólito de caixas de vidro que não mostram nada, reflexos de interiores unidos por ruas desertas é que chamamos de CIDADE.
Cidade, amigos, não é só lugar. É alma.
Postado por JujuRibeiro às 18:54 3 comentários