terça-feira, 23 de junho de 2009

Teoria da panelinha cearense

Eu precisava passar um tempo fora pra poder confirmar minha tese, e eis que ela se confirma diante de meus olhos: a teoria da panelinha cearense.


Afirmo, antes de mais nada, que não é uma visão preconceituosa, é apenas uma constatação de fatos. Não critico e não me isento de culpa, cearense torta que sou, também devo em alguns momentos contribuir com as observações. Digo logo também que não compactuo com visões separatistas-sulistas e que vivo feliz e satisfeita no nordeste, indo e vindo de cima pra baixo, misturando tudo numa cultura pessoal única. No entanto, todo povo tem prós e contras, e isso é fato inegável.

Pois bem, há um tempo já havia notado essa peculiar característica do cearense de viver em panelinhas. Na verdade, comecei a observar esse fenômeno ainda dentro do estado mesmo Entender o que estou querendo dizer é bem simples. Visualize a seguinte situação:

Coloque na mente a lembrança daquele forró que você já foi (não negue, até a pessoa mais cult do Ceará já foi a um forró, por mais que tente esconder a imagem na seção passado-negro-que-merece-ser-esquecido). Enfim, lembre-se desse fatídico dia e reconstitua a cena mentalmente.

Visualize você parado num ponto, com seu copo na mão, observando o movimento. O que você vê? Certamente, um mundarel de vários grupinhos conversando entre si, dançando entre si e um ou outro que se arrisca a tentar juntar uma turma na outra, o que normalmente só acontece quando temos grupos totalmente masculinos próximos a grupos totalmente femininos - esse é o único caso onde pode acontecer uma fusão entre panelinhas distintas.

Essa cena "todo-mundo-junto-mas-cada-um-na-sua" é a típica descrição da festa cearense. No primeiro carnaval que passei nas praias do litoral do estado, pensei: "É carnaval, certamente será diferente, as pessoas interagem mais e brincam todas juntas". Tolice! Em plena praça de Beberibe, um mar de grupinhos conversavam isoladamente, cada um em seu mundo e seu assunto, com seus copos na mão, olhando pros lados vez ou outra, mas sem nenhuma interação consistente.

Fiquei chocada com aquilo. E desde esse dia comecei a formular minha 'Teoria da panelinha'. Mas era preciso uma confirmação fora do estado para afirmar que isso é de fato uma característica do povo da terra de Iracema. E eis que durante minha jornada mensal em São Paulo a confirmação surge.

Como já escrevi aqui no blog, a porcentagem de conterrâneos que conheci aqui na terra da garoa foi fenomenal. Último fim de semana, saí com um grupo típico de cearenses, daqueles que não abandonam as origens. E eis que se repete a cena. Numa mesa imensa, toda made in Ceará, ninguém conversa com uma pessoa que não faça parte da sua panelinha. Não surgem assuntos que não façam parte da sua rotina e não se demonstra interesse pelo diferente ou desconhecido. Cada um na sua rodinha, com seus assuntos de praxe, o mundo exterior ou atividades diferentes não conseguem se infiltrar na conversa. Praticamente uma panela de pressão... bem vedada!

Obviamente, não posso de forma nenhuma generalizar. Conhecei cearenses aqui completamente abertos a conhecer novas coisas e pessoas, que mostram verdadeiro interesse em ampliar a panelinha e sentem prazer com isso. Mas no geral, todos os paulistas que conheci se mostraram mais abertos e interessados em novas pessoas e assuntos.. o que não aconteceu com todos os meus conterrâneos.

É uma pena, Brasil é todo lindo e todo mistura! Antes de ser nordestina sou brasileira, e adoro uma mistura, uma diferença, um acréscimo, um ponto de vista diferente, um mundo novo. Panelinhas são válidas e como disse, não me esquivo da culpa de participar delas. Mas depois de tal constatação, fica aqui registrado meu esforço pessoal futuro de abrir mais vezes a tampa da panela pra deixar o mundo entrar! 

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