sábado, 3 de julho de 2010

Cidade-lugar, alma sem cidade.

Fortaleza às vezes deixa de ser... Esquece de ser cidade.

De ser rua, calçada, gente, dia e noite. Talvez seja o calor. Fato é que os espaços trancam-se em vidros, lâmpadas e condicionadores de ar. Cidade do sol de luzes artificiais, só deixa o codinome mais irônico.

É, talvez seja mesmo o calor. Mas já são quatro da tarde e hoje não está tão quente. Muito tarde: Fortaleza já perdeu o costume de contemplar a si mesma. E se não for areia e mar, não há vidros, não há paisagem, não há nada lá fora. Horas em vão em busca de um café com varanda, um lugar aberto que fosse, que me deixasse ver os carros passando. Em terras onde varanda é rainha da arquitetura, não achei nenhuma. Eu queria ver a cidade viver, mas não encontrei uma janela aberta.

Tudo olha para dentro: pátios, corredores, balcões, umbigos. Tudo é sombrio e meia-luz na terra do sol brilhante. Disfarçados de charmosos, sofisticados e elegantes, os lugares se isolam. O chique é aqui dentro, o que há lá fora, não importa. Fortaleza virou colcha de retalhos. Um conjunto insólito de caixas de vidro que não mostram nada, reflexos de interiores unidos por ruas desertas é que chamamos de CIDADE.

Cidade, amigos, não é só lugar. É alma.

3 comentários:

Danilo Dantas disse...

Sinto uma tristeza quando vejo que a arquitetura da cidade privilegiou a praticidade ao invés do bem-estar e a beleza. Sinto falta de calçadas, passeios, árvores frondosas, das ilhas de calmaria no mar de agitação. Foi-se uma Fortaleza tão linda. Surge outra tão urbanóide, tão distante de si mesma, numa identidade estranha, estrangeira, triste. Arquitetos de Fortaleza: uni-vos em prol do resgate daquilo que Fortaleza um dia foi, uma cidade agradável, feliz, praiana, misto de praia, cidade de interior e metrópole.

Gabriela Gazelli disse...

Lar é onde o coração quer estar e se sente bem estando. Conheço o buraquinho que se instalou na tua alma, mais uma cicatriz no coração. Sinta-se abraçada, amiga querida. Tem algo muito bom esperando pela gente. Let it be

JujuRibeiro disse...

Amém amiga, amém!

E Danilo, nem acho que seja preciso resgatar os ares de "cidade pequena". Cidades grandes também podem ser belas. O que acabou em Fortaleza foi o hábito da comtemplação. Isso é o mais triste.