segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sobre mãos, anéis e coincidências.

Se um dia eu publicasse uma biografia, sem medo de errar o título seria "crônicas de (não) coincidências".

Dia desses alguém olhou minha mão direita e disse que eu usava o anel de formatura na mão errada. Para sanar meu olhar de incompreensão, me explicou na sequência que o correto seria usá-lo na mão esquerda, pois o adorno significa um "casamento" com a profissão. Fiquei pensando depois que, segundo as convenções sociais estabelecidas para anéis, mãos e relacionamentos, usar o símbolo da profissão na mão direita seria um compromisso com ela e não um casamento definitivo e convencional.

Aí lembrei do rumo que minha vida tomou nos últimos anos. E de todas as (não) coincidências que sempre me acompanham, involuntariamente. O anel de formatura não foi parar na mão direita por algum motivo pensado. A razão é que meu anelar esquerdo já está ocupado com outra jóia simbólica, que também foi adotada sem grandes pretensões, mas que me acompanha há mais de 10 anos.

Explico. Há uns 12 anos, encontrei um anel de mamãe meio abandonado e o pus no dedo sem muitos critérios (no anelar, o único em que o adorno cabia). E aí ele foi ficando, achava bacana ter algo que representasse minha mãe sempre comigo. Um ano depois perdi meu pai. E eu virei o ponto de equilíbrio da família, mais por força das circunstâncias que por escolha própria.

Cuidando da estabilidade emocional de mamãe, meu compromisso com ela virou uma espécie de "casamento". Na falta de papai para cuidá-la, toda a companhia do "na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza" ficou de herança para mim. Não reclamo, não acho ruim nem lamento. Fato é que o anel no dedo esquerdo acabou inconscientemente virando um símbolo de relacionamento.

Na falta do esquerdo, a jóia da formatura foi parar no direito. Não fazia idéia do real significado do presente que minha mãe tanto fez questão de dar. Mas aceitei, e uso-o sempre. Uns tempos depois me falam da convenção destes símbolos. Na mão direita seria apenas um compromisso. E quando descubro isso, coincidentemente (ou não) minha área de atuação já está direcionada por um caminho alternativo, um compromisso saudável e sério com a arquitetura, mas sem as amarras e convenções que um casamento traz. De repente, o uso casual de um anel ganhou uma forte significância...

Acho engraçadas essas convenções. Fato é que casamos e nos comprometemos com muitas coisas na vida. Trabalho, família, amores, ideais. Para algumas juramos fidelidade eterna, para outras prometemos seriedade e respeito. Para algumas, só damos satisfação...

Faltariam dedos para tantos compromissos feitos na vida. O lugar deles é no coração. Ali, cabem todos os anéis do mundo.

2 comentários:

marina disse...

quantas verdades, juju. minha vida também é cheia de (não) coincidências, e, inspirada por um discurso do steve jobs que ouvi certa vez e nunca esqueci, fico na fé de que aos poucos vou conseguindo ligar os pontos e fazer sentido de tudo o que me acontece na vida.

quanto aos anéis que vão pro coração ao invés dos dedos, achei a frase antológica, verdadeiríssima. "fé na tábua" que tu vai longe, mulher.

Aline disse...

Post massa, Ju!
Nunca usei meu anel de formatura, a não ser na colação, e a simbologia do compromisso ficou clara pra mim, após ler o post. Nunca assumi compromisso, nunca sequer me "amancebei" com a minha profissão e nunca o levei no coração. As escolhas que a gente faz na vida não são coincidências, de fato.